Calor recorde na Europa expõe os limites da adaptação e acende um alerta para o Brasil
27/06/2026
(Foto: Reprodução) Uma mulher com um leque perto da Torre Eiffel durante onda de calor em Paris, em 20 de junho de 2026
REUTERS/Sarah Meyssonnier
A Europa atravessa nesta semana a sua segunda grande onda de calor em dois meses, e os recordes caem em série.
Na última quinta-feira (25), ao menos 101 milhões de pessoas enfrentaram temperaturas acima de 35°C, e cerca de dois terços da população do continente ficaram acima dos 30°C.
O Reino Unido registrou seu dia de junho mais quente já medido, 36,4°C.
🔴 A França colocou 54 departamentos em alerta vermelho e chegou a 44,3°C no sudoeste. Na Espanha, o litoral norte, normalmente ameno, bateu 43,7°C.
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O continente se tornou uma espécie de termômetro do planeta. A Europa aquece cerca de duas vezes mais rápido que a média global, o que a transforma num laboratório involuntário de adaptação ao calor extremo.
Segundo especialistas, as medidas adotadas ao longo de mais de duas décadas — desde a onda de calor de 2003, que matou mais de 70 mil pessoas, a maioria na França — ajudam a mostrar até onde a adaptação consegue proteger a população e em que ponto começa a falhar.
Ao longo dessas duas décadas, países europeus ampliaram suas medidas de prevenção e resposta ao calor extremo, que passaram a ser adotadas também em outras regiões.
Entre as principais medidas acionadas nas ondas de calor recentes estão, por exemplo:
alertas por níveis de risco, que acionam protocolos de saúde e podem suspender aulas;
restrições ao trabalho ao ar livre nos horários mais quentes;
abertura de espaços climatizados ou arborizados, distribuição de água e instalação de pontos de névoa;
acompanhamento de idosos e outros grupos vulneráveis por equipes de saúde;
novas formas de comunicação, como nomear ondas de calor e criar gestores públicos dedicados ao tema.
Mas para o epidemiologista Nelson Gouveia, professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), a peça mais eficaz desse conjunto não é o alerta meteorológico em si, mas o que vem depois dele.
Ele afirma que a busca ativa e o monitoramento das populações vulneráveis fazem a maior diferença: países que instituíram visitas e ligações regulares a idosos isolados, doentes crônicos e pessoas em situação de rua durante o calor extremo registraram queda na mortalidade, assim como aqueles que garantiram acesso gratuito e capilarizado a espaços resfriados e à água.
Ainda assim, segundo o pesquisador, que estuda os impactos das mudanças climáticas, temperaturas extremas e ondas de calor na saúde pública e na sociedade, essas ações têm um limite.
"São respostas estritamente emergenciais de curto prazo, focadas na redução de danos imediata. Embora vitais para salvar vidas no dia do evento extremo, elas tratam o sintoma, não a causa da vulnerabilidade urbana."
Onda de calor atinge vários países da Europa
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A causa, no diagnóstico de Gouveia, é estrutural. Ele avalia que a Europa está bem preparada para gerenciar crises pontuais, mas despreparada para o que chama de novo normal.
O tecido urbano do continente — feito de prédios históricos sem isolamento térmico moderno, projetados para reter o calor no inverno — teria se transformado numa armadilha, em que muitas vezes faz mais calor dentro de casa do que na rua.
A isso se soma o fato de que apenas cerca de 20% dos lares europeus têm ar-condicionado, e a corrida por aparelhos alimenta, segundo o pesquisador, um ciclo vicioso: o uso massivo de climatização sobrecarrega a rede elétrica e devolve calor às ruas, intensificando o efeito de ilha de calor urbana.
Nesta semana, o pico de ar-condicionado provocou apagões em Milão e Turim, na Itália, e fez a Bélgica ver o preço da eletricidade superar 1 euro por kWh no fim da tarde.
Aparelho de ar-condicionado instalado na janela de um prédio residencial em Nantes, na França, durante a onda de calor que atinge grande parte do país nesta quinta-feira (25).
Stephane Mahe/Reuters
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Estudos de atribuição rápida estimam que a mudança climática causou cerca de 16,5 mil das 24,4 mil mortes ligadas ao calor no verão europeu de 2025, ou aproximadamente dois terços do total.
Projeções de longo prazo apontam 2,3 milhões de mortes adicionais relacionadas à temperatura em centenas de cidades europeias até o fim do século, com a mortalidade tendendo a crescer mesmo onde a adaptação avança.
No campo econômico, a seguradora Allianz calcula que as maiores economias do continente podem acumular perdas de US$ 638 bilhões até 2030 caso as ondas de calor sigam se intensificando.
Também há um limite biológico para a capacidade do corpo de suportar temperaturas elevadas. O organismo se resfria principalmente pela evaporação do suor, mas esse mecanismo perde eficiência quando o ar está muito quente e úmido.
Essa condição é medida pela chamada temperatura de bulbo úmido, indicador que combina calor e umidade. Segundo Gouveia, quando esse limite é ultrapassado, até pessoas jovens e saudáveis ficam expostas a riscos graves:
Existe um limite biológico e termodinâmico inflexível. Mesmo um indivíduo jovem, saudável, hidratado e despido, descansando na sombra diante de um ventilador, entrará em hipertermia e falência múltipla de órgãos em poucas horas
Homem tenta amenizar o calor em Colônia, no oeste da Alemanha.
AFP
Um alerta para o Brasil
No Brasil, as ondas de calor já têm impacto relevante sobre a saúde, mas as medidas de prevenção e resposta ainda são limitadas.
Um estudo inédito em escala nacional estima que cerca de 120 mil mortes entre 2000 e 2019 podem ser atribuídas a esses eventos. O levantamento também mostrou que idosos representam oito em cada dez vítimas e que pessoas mais pobres e com menor escolaridade estão entre as mais afetadas.
Ao mesmo tempo, grande parte das cidades brasileiras ainda não dispõe de planos estruturados para enfrentar temperaturas extremas.
Um levantamento feito pela presidência da COP30 em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), com 53 municípios, mostrou que 66% ainda não começaram ou estão nas fases iniciais da elaboração dessas estratégias.
Outros 75% não usam dados de forma estruturada, e 85% dependem de recursos externos para colocar as ações em prática.
Algumas iniciativas já foram adotadas, mas ainda são pontuais. Em São Paulo (SP), a Operação Altas Temperaturas instala tendas de hidratação e atendimento para pessoas em situação de rua.
No Rio de Janeiro (RJ), um protocolo criado em 2024 estabeleceu uma escala de calor de 1 a 5. O nível 4 foi registrado pela primeira vez em fevereiro de 2025.
Mas segundo Gouveia, as medidas adotadas na Europa não podem ser simplesmente reproduzidas no Brasil sem considerar as diferenças sociais e urbanas entre os países.
“No Brasil, o grande desafio é o que chamamos na epidemiologia de racismo ambiental ou injustiça climática. Enquanto bairros nobres desfrutam de microclimas amenos, as periferias e favelas enfrentam o extremo oposto”, afirma.
Entre os principais problemas estão as condições precárias de moradia. Casas sem isolamento térmico, reboco ou ventilação adequada, muitas vezes cobertas por telhas de zinco ou fibrocimento, acumulam calor durante o dia e podem permanecer quentes até durante a noite.
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Tenda da 'Operação Altas Temperaturas', instalada na Praça da Republica, distribui agua e frutas para pessoas em situação de vulnerabilidade para amenizar o impacto do calor;
Paulo Pinto/Agência Brasil
Fora isso, a desigualdade econômica também limita o alcance de medidas como a interrupção do trabalho nos horários mais quentes.
Trabalhadores informais, ambulantes, entregadores de aplicativo e profissionais da construção civil nem sempre conseguem suspender as atividades sem perder renda.
Para as famílias de baixa renda, o custo da energia ainda dificulta o uso prolongado de ventiladores e torna o ar-condicionado inacessível.
Outro fator é a distribuição desigual das áreas verdes. A falta de árvores, sombra e parques, principalmente nas periferias, aumenta a exposição ao calor. Além de bloquear parte da radiação solar, a vegetação ajuda a reduzir a temperatura por meio da evapotranspiração.
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Há também uma dificuldade de reconhecer as ondas de calor como desastres. A pesquisadora Renata Libonati, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), classifica esses eventos como um “desastre negligenciado”, já que não deixam o mesmo impacto visual de enchentes ou deslizamentos.
Aliado a tudo isso, os efeitos sobre a saúde muitas vezes aparecem de forma indireta, com o agravamento de doenças cardiovasculares, respiratórias e renais. Isso dificulta a identificação do calor como fator associado às mortes e contribui para que o problema receba menos atenção e recursos.
E as projeções indicam que esses impactos devem aumentar nas próximas décadas. Um estudo liderado por Gouveia e publicado na revista científica "Environment International" estima que a proporção de mortes relacionadas ao calor na América Latina pode mais que dobrar entre 2045 e 2054, passando de 0,87% para 2,06% do total de óbitos.
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